Contos

O acordar

O dia amanhece. Meu corpo acorda, minha mente não.
Faço força para voltar a dormir e continuar embrenhado em meus sonhos.
Estava com você envolvida em meus braços, aconchegada, protegida. Sentia o compasso de sua respiração.
O movimento firme e acelerado do seu coração compassava o meu.
Não, não quero acordar.
Quero voltar para o deleite de seu corpo junto ao meu.
Impossível.
Meu corpo teima em me manter acordado. Abro os olhos e a vejo. Ele treme
Arrepia de cima a baixo.
Difícil me controlar.
Uma mistura de dor e prazer me impulsiona.
Num movimento rápido, largo você.
Me desapego deste contato delicioso que é seu corpo.
Não consigo mais resistir.
É imperioso. Reúno forças para não ir, mas a natureza é mais forte.
Merda.
Preciso urgentemente ir fazer meu xixi matinal!!!



Fluzão

Tri-Campeão Brasileiro
1970 - 1984 - 2010

Domingo, 3 de dezembro de 2010, exorcitarei o Sobrenatural de Almeida e rumarei, novamente, para Barueri, para assistir o que está escrito a mais de 1000 anos: ver o Fluzão dar mais um passo para a conquista do Campeonato Brasileiro de 2010.

Impossível esquecer o 1984 e o de 1970.

Alias, por falar em 1970 e o Campeonato Brasileiro, me vem a mente o dia 16 de dezembro de 1970. Uma quarta-feira.

O campeonato entrará em seu quadrangular decisivo. Fluminense, Palmeiras, Atlético Mineiro e Cruzeiro.

O Fluminense jogara no domingo contra o Palmeiras, no Maracanã e lá estava eu para presenciar a vitória do meu Fluzão por 1 x 0. Gol de Mickey.

16 de dezembro. O dia amanheceu como de costume. Com o filho da p... do corneteiro tocando a alvorada às 05h45.

Levantamos, ranchamos e ao me dirigir ao pátio de formatura com o 70-175 Paiva, já o perturbava, coisa que vinha fazendo desde segunda, com a iminente vitória do Fluzão naquela noite.

Não me recordo se o Paiva era atleticano ou cruzeirense, mas acredito que deveria ser cruzeirense, pois entrou na pilha.

Bem, caminhávamos para o Pátio da Bandeira e dizia que o meu Fluzão iria ganhar.

Ele, como bom e bem mineiro que é, retrucava, até que o desafiei a irmos para BH ver o jogo.

O que no início parecia uma loucura, pois era uma quarta-feira, tomou forma ao longo do dia e, após o sinal da última aula corremos para o alojamento, trocamos a farda por roupa civil, descemos as escadas numa desabalada sem precedentes até o rancho, saímos por trás do alojamento, passamos pela entrada do rancho dos oficiais, deixamos a caixa d'água, subimos a ladeira e, chegando à frente da escola, pulamos para a linha do trem e continuamos a correr desabaladamente, pois o último ônibus que nos poria em BH a tempo de vermos o jogo já estava de partida.

A volta já estava toda planejada: chegaríamos ao Mineirão, nos dirigiríamos a torcida do Fluzão, da qual fazia parte antes de ir para BQ, e falaria com o pessoal que pegaríamos uma carona em um dos ônibus para voltarmos à escola.

Simples assim.

Saltamos em BH e, sob o comando do Paiva, chegamos ao Mineirão.

Fomos à torcida e ......

Primeiro revés.

Não poderia voltar, a princípio, no ônibus, pois estavam lotados e havia acabado de ser promulgada uma lei que não podia haver passageiros em pé em viagens inter-estaduais.

Mas o pessoal disse que tentaria dar um jeito e sentamos para ver mais uma vitória do Fluzão por 1 x 0.

Novamente Mickey, só que, ao invés de ser aos 34 minutos do primeiro tempo, foi aos 35.

Saímos felizes da vida, pelo menos eu, e fomos para os ônibus.

Maior confusão. A torcida do Cruzeiro não nos deixava chegar aos ônibus, a polícia enfiava a porrada em qualquer um e, um a um, os vidros dos ônibus foram quebrados.

Amainada a confusão, não podemos entrar no ônibus. Não houve jeito. O motorista estava irredutível.

Mas, como para tudo na vida há um jeito, um dos meus amigos ficou perturbando o motorista, demos a volta, nos apoiamos no pneu traseiro e entramos pela janela quebrada. Ficamos escondidos no chão de um dos bancos e lá se foi o ônibus rumo ao Rio.

A ventania dentro do ônibus, a essa altura, não incomodava nada. Mentira.

Por volta das 5 da madrugada, finalmente o ônibus para na Patrulha Rodoviária na entrada de BQ e nós dois descemos e rumamos para a linha do trem, em diereção à escola.

O cansaço não era nada diante do medo e da euforia da aventura, mas o tempo urgia!

Conseguimos chegar ao muro em frente à escola às 05h45. Pulamos e, numa decisão rápida, resolvemos entrar pela frente da escola, pelo túnel ao lado do paiol. Não havia mais tempo.

Saímos no pátio do rancho ao mesmo tempo que o filho da p.... do corneteiro tocava a alvorada.

Só aí nos demos conta que estávamos de roupa civil e brancos, cobertos de pó de arroz.

Os madrugadores não acreditavam no que viam e, como coriscos, subimos a escada para o alojamento, tiramos a roupa mais do que depressa e, ainda na correria, fomos para o chuveiro.

Foi o tempo certo para o sargento de dia entrar no alojamento a procura de nós e nós não mais estávamos lá.

Nem é preciso dizer que as aulas do dia foram, por nós vista, nos braços de Morfeu!

No domingo seguinte o Fluzão empatou com o Galo por a 1 x 1, mais uma vez com gol de Michey, aos 33 minutos do primeiro tempo!

Em 1984 estava nos 2 jogos no Maracanã contra o Vasco. Na primeira, 1 x 0, gol de Romerito e no segundo, 0 x 0.

Está escrito há mais de 1000 anos......

 

Tortura  

Meus olhos estavam povoados de pequeninas luzes. Por que será que esta luz tem que ser tão forte? Deve ser parte de algum complô maquiavélico para que não possamos identi-ficar o homem que se esconde por de trás dela. Dele, só se conseguia distinguir o vulto. Estava sentado numa cadeira que, ao mesmo tempo que subia, ia se reclinando, num mo-vimento suave e preocupante. Ficava me per-guntando por quanto tempo mais essa agonia iria durar?

Pronto. O movimento estancou do mesmo modo que começou. Sem nenhum sinal ou explicação.

O agente ameaçador movimentou o refletor, procurando um melhor ângulo. Agulhadas aportaram a meus olhos, como faíscas saídas do aço em contato com um esmeril. As dores se misturaram. A dos meus olhos, com as que já vinha sentindo. Não conseguia mais dis-tinguí-las. Uma onda de pavor percorreu todo o meu corpo. A adrenalina tinha se instalado em cada um de meus poros e um suor frio escorreu de minha testa, caminhando em di-reção ao meu peito. Parte dele desviou-se para minhas costas, por dentro da camisa. Um calor invadiu-me e aquele fio de suor frio em minhas costas, arrepiou-me. O que iria acontecer agora?

O pior estava por vir.

Meu inconsciente registrava uma voz que eu, de todas as maneiras possíveis, me recusava a ouvir.

- Vamos, por que não abre logo a boca? Para que resistir? De uma maneira ou de outra, vou arrancar o que é preciso. É melhor coo-perar logo de uma vez. Vamos poupar tempo e sofrimento para todos.

Assimilei que iria resistir. Não importava o que pudesse me acontecer, iria resistir. Procurei desviar meus pensamentos do que acabara de ouvir e da dor que sentia. Vagavam vadiamente, ora em minha adolescência, ora em minha infância. Era um dia claro como de verão e aquela mangueira convidativa. Já estava a meio caminho do maior fruto de todos os que meus pequenos olhos podiam ver, quando se deu o tombo.

Assim, como o mágico retira um coelho da cartola, ao abrir os olhos, minha mãe já passava suas mãos por todo o meu corpo, procurando algo que justificasse suas preocupações.

Não conseguia balbuciar nenhuma palavra. O susto não me permitia. Tentava articular qualquer som, mas não havia ar em meus pulmões. Após algum tempo, que mais pareceu uma eternidade, consegui abrir a boca e ...

- Muito bem, resolveu cooperar!

Nesse momento minha boca foi violentada! Dedos grossos e mal cheirosos invadiam a sua privacidade, como se isso fosse possível. Ameacei mordê-los.

- Não faça isso!

Novamente aquela voz ecoou em meus ouvi-dos. Como será que esse cara pode adiantar-se a meus movimentos? Tentei levantar e, rápido como quem rouba, suas mãos já pres-sionavam meu peito contra a cadeira. Quis gritar, mas novamente suas mãos invadiram minha boca. Estava incrédulo. Por que tinha que passar por isso tudo?

Veio-me à mente um filme do Dustin Hoff-man, Marathon Man, Sir Laurence Olivier fazia o papel de um dentista nazista e... achei graça da rima involuntária. Nossa mente tem esse poder. Como posso achar graça em al-guma coisa diante da situação em que me encontro? Continuei viajando nesses pensa-mentos. Na verdade, acho que todo dentista tem alguma coisa de nazista. De sádico. Ou será de protologista? De novo a rima invo-luntária. Ou será que não? Será que dentista é o inverso do protologista? Um trata do início do processo digestivo. O outro, do fim!

- Ah! Muito bem. Agora você não me escapa!

Era novamente aquela voz.

Num gesto brusco e rápido, arrancou o maldito siso que transformou meu final de semana num inferno.